Escrevo pouco por aqui.
Acho que só escrevo quando estou deprimida. O que é um bom indicio de pessoa minimamente feliz.
Na verdade, escrevo muito e apago ainda mais.
Mas isso é só porque não tenho nada de interessante para dizer. E quando não se tem nada de interessante para dizer, mais vale estar calado, sempre disse a minha avó.
A minha avó diz muitas coisas deste gênero. Muitas delas cheias de razão mas bastante desagradáveis por vezes. Consegue ser uma pessoa difícil ela. Somos parecidas. Ela cozinha bem e é super inteligente. Somos muito diferentes. Gosta de perder tardes inteiras de fim-de-semana numa esplanada de um café só a ver a paisagem ou quem passa. Eu não tenho muita paciência. "Não tens paciência para nada" diz-me ela. É péssima com tecnologias e eu e a minha mãe bem que tentamos ensina-la, ela desiste quase sempre. "Não tens paciência para nada" digo-lhe eu.
Quando estava a viver longe dela sabia que o sinal de saudades era quando recebia uma sms da minha avó a dizer "oi". A que custo ela o fazia. A meia hora que ela não perdia no telemóvel só para que a neta lhe ligasse sem ela parecer chata. Ela consegue ser chata. Ainda agora me chamou chata. Diz que não a deixo ouvir a novela. A minha avó não é como as vossas, não perde as noites a ver novelas, nem sabe quem são as apresentadoras da tarde e da manhã. Não vê os programas das terrinhas e da música pimba e odeia rancho e Tony Carreira. Mas gosta de história. E cada novela que tenha um pingo de história, lá está ela colada ao ecrã. Isso e no pingo doce aos sábados à tarde.
Ela é como eu. Percorre todas as promoções de todos os supermercados. Eu percorro todos os saldos de todas as lojas do shopping. Bem...no fundo sou eu que sou como ela.
A minha avó canta. Mas canta bem. Sempre cantou bem. Não canta só, não canta como a maior parte das pessoas dos coros, canta mesmo. Sabe cantar. Às vezes falta-lhe o ar...e a confiança. Somos parecidas.
Ela não sabe, mas foi ela que me pegou o vicio do jogo. Nas raspadinhas. No totoloto. No euromilhões. Nas rifas. Depois chama-me viciada. Diz que gasto dinheiro desnecessário em raspadinhas. Mas esta é a senhora que desde que me lembro todas as sextas-feiras à tarde vai por o seu totoloto. Sempre a mesma chave, sempre a mesma fé. Pouca ou nenhuma. Eu por outro lado acho sempre que vou ficar milionária.
Uma vez sonhou com a chave da lotaria. O meu avô quase que a esganava por não ter comprado a cautela certa.
Ela já perdeu o meu avô. Perdemos todos. Eu perdi menos. Não vivemos no mesmo tempo nem no mesmo espaço. Foi viúva cedo e quer ser viúva até morrer. Não por grande paixão. Diz que não tem paciência.
Aqui em casa a paciência não reina. Nem as grandes palavras. Têm reinado as grandes ações. A minha avó não me diz o que os vossos avós vos dizem. Eu sei porque eu ouço, e porque vejo. Mas a minha avó não sai de casa sem saber o que vou comer ou o que vou fazer. Não passa um dia sem palavras minhas. Mesmo que más por vezes. Mesmo a discutir lá me faz os meus panados ou o meu bolo verde. E lá me faz o meu vestido de verão contrariada. Não porque não quer. Mas porque como eu, tem a sua veia de artista. Emoção à flor da pele e palavra na ponta da língua.
Não é fácil ter uma avó como a minha...mas é tão bom! Deviam experimentar. Antes que seja tarde, sabem?
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quinta-feira, 29 de setembro de 2016
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
E agora, amor?
Amor,
Faz só três semana que não vejo os teus olhos verdes. Mas sabes? Já faz três semanas que não vejo os teus olhos verdes. O tempo não tem sido amigo. Não tem passado rápido como quando estávamos juntos, nem o ponteiro tende em correr a toda a velocidade para a meta. Agora todos tiram o seu tempo. Tudo passa com custo. Com tempo. Com dificuldade. Todos vivem lentamente e aproveitam cada minuto. Tenho sentido todos os minutos sabes...
A palavra saudade ficou pequena...já não cabes nela. Já não tenho palavra para ti. E agora? Como faço caber tanta saudade em tão pouco espaço? E repara amor, só não vejo os teus olhos verdes há três semanas. Já não vejo os teus olhos verdes há três semanas...E agora?
Agora já não ouço a tua voz ensonada "no caminho até ao carro". Já não te ouço chamar-me criança quando te peço para vires brincar comigo para a piscina. Agora já não tenho de insistir para vires para a água. Nem tenho de insistires para não saíres já da água! Agora já não tenho de te convencer a conduzir para eu apenas aproveitar a viagem. Nem me agarro com força ao banco do carro enquanto te peço para abrandares, embora nunca o faças.
Hoje dei por mim parada em frente à tua porta, com vontade de te ligar e pedir para que desças. Acho que nem o teu carro estava lá.
Que saudades de te ver descer e de te ouvir respirar forte enquanto me beijas. De te ouvir respirar forte enquanto adormeces. E agora, amor? Quem é que agora vai adormecer na praia comigo? E quem vai adormecer enquanto fazemos planos? Quem vai adormecer uma hora só porque sim e ouvir-me ralhar duas por estares a dormir?
Agora, quando eu estiver com frio quem é que me vai gozar por não ter trazido casaco?
Acho que a minha mão, só cabe na tua mão fechada. Agora quem é que me vai ajudar a chegar onde não chego? Já não vou ouvir todos os sussurros de surpresa pelos teus quase dois metros. Nem vou ouvir comentários menos próprios pelos nossos diferentes quarenta centímetros.
Agora, quando eu estiver com frio quem é que me vai gozar por não ter trazido casaco?
Acho que a minha mão, só cabe na tua mão fechada. Agora quem é que me vai ajudar a chegar onde não chego? Já não vou ouvir todos os sussurros de surpresa pelos teus quase dois metros. Nem vou ouvir comentários menos próprios pelos nossos diferentes quarenta centímetros.
Quero de volta o meu sem assunto e nada romântico. O que não me abre a porta nem puxa a cadeira.
Saudades mesmo de me deitar no sofá com os pés no teu colo enquanto te queixas das péssimas séries que vejo. De irmos ao cinema e discutirmos por quem comeu mais pipocas. Por no final de um bom filme as protagonistas serem tão melhores atrizes do que eu alguma vez serei, segundo as tuas palavras.
Agora ninguém me vai abraçar e tirar os meus pés do chão. Ninguém me vai olhar de cima e dizer que a minha camisa é demasiado transparente.
Não te vou empurrar mais da cama. Nem te vou obrigar a sorrir para fotografias. Não te vou obrigar a estar acordado ou a ir jantar o que eu quero jantar. Agora nem tens de fazer a cama porque te vou visitar.
Não te vou empurrar mais da cama. Nem te vou obrigar a sorrir para fotografias. Não te vou obrigar a estar acordado ou a ir jantar o que eu quero jantar. Agora nem tens de fazer a cama porque te vou visitar.
Espero que a água desse teu duche por aí não seja tão quente quanto a minha. E que as duas horas que separam o nosso relógio te façam voltar mais rápido.
E agora, amor?
O número três já não me soa à conta que Deus fez. Nem a saudade é mais um fortalecedor de relações.
Agora és tu aí e eu aqui...
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